cavalo sem nome

Recebi em 2014 um convite para acompanhar e filmar uma das maiores cavalgadas do Brasil, que saía de Goiânia com destino ao município de Aruanã (GO). A cavalgada cobria mais de 300 quilômetros ao longo de 10 dias quase inteiramente por estradas de terra e percorria também um Goiás menos conhecido, ainda profundamente rural e tradicional. A jornada dos cavaleiros envolvia não só um desafio físico, mas também o estabelecimento de um outro ritmo interno, mais lento e em sintonia com as paisagens. Anos depois, percebi nas mais de 20 horas de material produzido uma enorme dificuldade minha em filmar um dos cavaleiros que havia me acompanhado. Identifiquei ainda a adoção de um mesmo procedimento para a feitura dos enquadramentos das paisagens do norte do estado e algumas artimanhas na apresentação do entra e sai de cavalos e cavaleiros em cena, nas paisagens de soja e detalhes da arquitetura de casebres e pontes. Em cavalo sem nome o material filmado passa por uma nova montagem sempre que é mostrado e ao final do período de exibição em espaços institucionais, o arquivo é deletado. Os convites de participação requisitam novos arranjos das tomadas, de sequências ou supressão de planos que me pareciam definitivos. Desse modo, os arquivos estão sempre em recomeço ao colocar o material em trânsito, um filme sem fim que desbanca a narrativa comumente utilizada nos filmes de viagem, isto é, a da valorização de um ponto de chegada.

A saudade é o sussurro mais eloquente que a ansiedade tratou de dar insônia e impedir amores / A história da gente é também a história do mundo / Seu coração imóvel determina a entrada e saída dos cavalos em cena / Uma flecha me divide em dois enquanto cubro com o lençol a extremidade da janela / O horizonte indivisível atravessa nosso caminho

O projeto conta com colaboração de Emerson Maia, Larissa Fernandes, Thiago Ramos, Rico Villares, Lidianne Porto, Gabriel Raposo, Silvio Calazans, Leandro Rodrigues e Thomaz Magalhães. Patrocinado pela Lei do Audiovisual, 2014.