Despertáculo: cartas e fotografias, projeto de longa duração iniciado em 2020 com previsão de encerramento em 2033, ano do centenário de Goiânia
TENTAR IMAGINAR O QUE GOIÂNIA VIRÁ A SER
No projeto Despertáculo, retorno a parte das fotografias realizadas ao longo da última década e escrevo cartas destinadas ao poeta Pio Vargas e ao fotógrafo Samuel Costa, artistas goianos mortos precocemente. Reconheço, nas obras de ambos, a convocação de interlocutores capazes de sustentar a imaginação de um outro mundo. Ao elegê-los como destinatários, assumo que suas práticas abriram um campo de trocas, endereçamentos e partilhas de história. O trabalho possui longa duração e sua conclusão está prevista para outubro de 2033, ano do centenário de Goiânia.
Despertáculo articula imagens e cartas para tornar visíveis percursos realizados ao longo dos últimos anos e para projetar outro horizonte de futuro para a cidade. Coloco meu corpo em situação de ateliê na rua e torno públicos esses processos. Cada montagem realizada com fotografias e cartas recebe o nome de corte, entendido como uma operação que reorganiza tempos, desloca sentidos e cria novas vizinhanças entre imagem, texto e memória. As cartas abordam o esplendor do comum, ironizam cenas específicas, antecipam o centenário de Goiânia, comentam aparições e ficcionalizam acontecimentos inscritos no terreno fértil da montagem.
Pio permanece como presença anterior. Imagino uma cidade a partir dos relatos daqueles que conviveram com ele. Samuel surge depois, no contato direto com sua produção fotográfica e no testemunho de sua mãe sobre o retorno ao estado de Goiás no final dos anos 1980. Nos poemas de Pio, reconheço o impulso de desfazer o passado, com imagens de um cotidiano em tensão. Samuel, por sua vez, aciona deslocamentos anteriores para abordar, com delicadeza, temas como família e viagem.
Cortes:
Corte I (2020) celebra a desordem criativa das ruas do Setor Central de Goiânia; Corte II (2020) valoriza o gesto insurgente dos arquivos e seus efeitos de simultaneidade; Corte III (2021) destaca os instantes luminosos em que texto e imagem se sobrepõem e ultrapassam uma dimensão edênica da paisagem; Corte IV (2021) propõe transformar o tempo a partir das relações entre ambientes, objetos e trânsitos das figuras evocadas nas cartas; Corte V (2022) toma uma fotografia de Samuel Costa como ponto de partida para pensar o tempo, a cidade e a noção de pertencimento. Este corte integrou a exposição The Silence of Tired Tongues, na Framer Framed (Amsterdã), com curadoria de Raphael Fonseca. Agradeço especialmente a Keith Tito, Marco Aurélio Techio e ao Museu da Imagem e do Som de Goiás (MIS-GO). Crédito da imagem de Samuel Costa: Família de lavradores, setembro de 1977, Jataí-GO. Acervo MIS-GO; Corte VI (2024) reúne cerca de dez cartas realizadas nos últimos anos e promove uma curadoria de fotografias que buscam criar novas formas de narrar o cotidiano.
Cartas:
Terreno (para Samuel Costa) foi publicada no livro Escritos de artistas escritos em arte – vol. 1 (Uerj, 2021); Filtro Solar (para Pio Vargas) foi publicada no livro Escritos de artistas escritos em arte – vol. 2 (Uerj, 2022); Dinamite (para Pio Vargas) foi lida em voz alta às 15h47, em 17 de Janeiro de 2023, na esquina da Rua 4 com a Avenida Araguaia, em Goiânia, e não será publicada; Lapalissada (para Pio Vargas) foi publicada no livro Escritos de artistas escritos em arte – vol. 3 (Uerj, 2025); Diserto (para Pio Vargas) foi publicada no livro Escritos de artistas escritos em arte – vol. 4 (Uerj, 2025); Sinecura (para Samuel Costa) foi publicada no livro Escritos de artistas escritos em arte – vol. 5 (Uerj, 2026); Luzeiro (para Pio Vargas e Samuel Costa) foi lida em voz alta às 3h, em 4 de fevereiro de 2026, na Rua 10, Setor Oeste, e não será publicada.
As cartas Piparote (para Samuel Costa), Lapalissada (para Pio Vargas), Amargor (para Pio Vargas), Sabujo (para Pio Vargas e Samuel Costa), Queda (para Samuel Costa), Diserto (para Pio Vargas), Terreno (para Samuel Costa) e Ignoto (para Samuel Costa) foram publicadas na tese Depois que o Sol baixar um pouco e outros ensaios (Uerj, 2024).
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Despertáculo: letters and photographs, a long-term project initiated in 2020 and scheduled to conclude in 2033, the year of Goiânia’s centenary
TRY TO IMAGINE WHAT GOIÂNIA WILL BECOME
In the Despertáculo project, I return to a selection of photographs produced over the last decade and write letters addressed to the poet Pio Vargas and the photographer Samuel Costa, artists from Goiás who died prematurely. In their works, I recognize a call for interlocutors capable of sustaining the imagination of another world. By choosing them as recipients, I acknowledge that their practices opened a field of exchange, address, and shared history. The project unfolds over a long duration and is set to conclude in October 2033, the centenary of Goiânia.
Despertáculo brings together images and letters to make visible paths traced over recent years and to propose another horizon of the future for the city. I place my body in a condition of a studio on the street and make these processes public. Each assembly of photographs and letters is called a cut, understood as an operation that reorganizes time, displaces meaning, and produces new proximities between image, text, and memory. The letters address the splendor of the ordinary, ironize specific scenes, anticipate the centenary of Goiânia, comment on apparitions, and fictionalize events inscribed in the fertile ground of montage.
Pio persists as an anterior presence. I imagine a city from the accounts of those who lived alongside him. Samuel enters later, through direct contact with his photographic work and through his mother’s testimony about his return to Goiás at the end of the 1980s. In Pio’s poems, I recognize an impulse to undo the past, marked by images of a daily life in tension. Samuel, in turn, activates earlier displacements to approach, with delicacy, themes such as family and travel.
Cuts:
Cut I (2020) celebrates the creative disorder of the streets in downtown Goiânia; Cut II (2020) emphasizes the insurgent gesture of the archives and their effects of simultaneity; Cut III (2021) highlights luminous intervals where text and image overlap and exceed an edenic conception of landscape; Cut IV (2021) proposes a transformation of time through relations between environments, objects, and the movements of figures evoked in the letters; Cut V (2022) uses a photograph by Samuel Costa as a point of departure to think about time, the city, and the notion of belonging. This cut was included in the exhibition The Silence of Tired Tongues, at Framer Framed (Amsterdam), curated by Raphael Fonseca. Special thanks to Keith Tito, Marco Aurélio Techio, and the Museu da Imagem e do Som de Goiás (MIS-GO). Image credit (Samuel Costa): Família de lavradores, September 1977, Jataí-GO. Collection MIS-GO; Cut VI (2024) brings together around ten letters produced over recent years and curates a selection of photographs that seek to create new ways of narrating everyday life.
Letters:
Terreno [Land] (for Samuel Costa) was published in the book Escritos de artistas escritos em arte – n. 1 (Uerj, 2021); Filtro Solar [Sunscreen] (for Pio Vargas) was published in Escritos de artistas escritos em arte – n. 2 (Uerj, 2022); Dinamite [Dynamite] (for Pio Vargas) was read aloud at 3:47 p.m., on January 17, 2023, at the corner of Rua 4 and Avenida Araguaia, in Goiânia, and will not be published; Lapalissada [Lapalissade] (for Pio Vargas) was published in Escritos de artistas escritos em arte – n. 3 (Uerj, 2025); Diserto [Eloquent] (for Pio Vargas) was published in Escritos de artistas escritos em arte – n. 4 (Uerj, 2025); Sinecura [Sinecure] (for Samuel Costa) was published in Escritos de artistas escritos em arte – n. 5 (Uerj, 2026); Luzeiro [Beacon] (for Pio Vargas and Samuel Costa) was read aloud at 3:00 a.m., on February 4, 2026, on Rua 10, Setor Oeste, and will not be published.
The letters Piparote [Flick] (for Samuel Costa), Lapalissada [Lapalissade] (for Pio Vargas), Amargor [Bitterness] (for Pio Vargas), Sabujo [Hound] (for Pio Vargas and Samuel Costa), Queda [Fall] (for Samuel Costa), Diserto [Plainspoken] (for Pio Vargas), Terreno [Ground] (for Samuel Costa) and Ignoto [Unknown] (for Samuel Costa) were published in the PhD thesis Depois que o Sol baixar um pouco e outros ensaios [After the sun goes down a little and other essays] (Uerj, 2024).