A outra voz

A outra voz: faixas site-specific, tinta acrílica preta sobre tecido sedalina branca

Nos últimos anos venho desenvolvendo faixas a partir de versos de músicas sertanejas. O conjunto dessas obras chama-se A outra voz. Nessas escolhas, interessa-me destacar um eu-lírico que, ao ser deslocado para o espaço da arte, adquire novas camadas de leitura. As faixas são confeccionadas em colaboração com o artista Sandro de Oliveira, que realiza a feitura material das peças a partir de encomendas minhas. O gesto de reinscrever essas vozes no espaço expositivo revela suas contradições e sua dicção melodramática, ampliando o sertanejo para além do circuito de consumo e aproximando-o de uma dimensão crítica, poética e reflexiva.

Entre as faixas já realizadas, destacam-se horizonte azul vermelho luzes a brilhar, verso da canção Horizonte Azul, de Leandro & Leonardo, exibida na mostra Abrir Horizontes (Centro Cultural Octo Marques); eu quero que risque o meu nome da sua agenda, retirada de Telefone Mudo, imortalizada pelo Trio Parada Dura, mostrada na mostra Terra Caçula (Sesc Palmas); com letras douradas num papel bonito chorei de emoção quando acabei de ler, verso de Convite de Casamento, célebre na voz de Gian & Giovani, incluída em Novas Aquisições – Coleção Artistas Goianos (Centro Cultural Octo Marques); e é hora de parar com a presepada respeita a sua namorada, escrita por Marília Mendonça e Maraísa, apresentada em Não vou negar: artes visuais, território e música sertaneja (Centro Cultural UFG).

No primeiro caso, o verso de Horizonte Azul convoca uma imaginação de partida e reencontro. A imagem do horizonte como promessa, iluminado por cores que se alternam entre o dia e a noite, estrutura um desejo de retornar a um lugar que já não existe como tal. Trata-se de um gesto de mirar o longe para tentar recompor o que se perdeu. No espaço expositivo, essa paisagem sinestésica ganha corpo como projeção afetiva, um campo de expectativa suspensa entre o que se lembra e o que se deseja reencontrar.

No caso de Telefone Mudo, o trecho convoca um eu-lírico que exige o apagamento de si. Interessa o nome riscado, o número esquecido, o vínculo que se desfaz no plano material. Nesse movimento ambivalente, emerge o orgulho ferido como modo de preservar dignidade na perda. Ao transpor o verso para o espaço expositivo, proponho-o como alter ego, uma voz íntima e coletiva, que expõe uma economia emocional marcada por corte e inacabamento.

Na faixa é hora de parar com a presepada respeita a sua namorada, o horizonte é outro. Não se trata do fim, mas da disputa pela continuidade do vínculo. A frase reivindica reconhecimento e lugar público. O eu-lírico feminino se apresenta de modo frontal, recusa a posição da mulher que sofre em silêncio, cobra reciprocidade, afirma seu próprio valor e tensiona imagens cristalizadas da mulher no ambiente sertanejo.

Os versos, quando levados ao espaço da arte, ganham novas camadas críticas. O sertanejo aparece como campo de disputas ligado ao orgulho, à perda, à reivindicação e ao desejo de reconhecimento. No espaço expositivo, as canções deixam de ser apenas parte da vida cotidiana e passam a operar como pensamento. As faixas propõem outras formas de ocupar o espaço, trazendo novas vozes, dicções e memórias, e ativam uma dramaturgia aberta, sempre em movimento.

A outra voz [The other voice]: site-specific banners, black acrylic paint on white sedalina fabric

In recent years, I have been developing banners based on verses from Brazilian sertanejo songs. This body of work is titled The Other Voice. My interest lies in foregrounding a lyrical voice that, when displaced into the space of art, acquires new layers of reading. The banners are produced in collaboration with the artist Sandro de Oliveira, who carries out the material making of the pieces based on my commissions. The gesture of reinscribing these voices within the exhibition space reveals their contradictions and melodramatic diction, expanding sertanejo beyond circuits of consumption and drawing it closer to a critical, poetic, and reflective dimension.

Among the banners already produced are horizonte azul vermelho luzes a brilhar, a verse from the song Horizonte Azulby Leandro & Leonardo, shown in the exhibition Abrir Horizontes (Centro Cultural Octo Marques); eu quero que risque o meu nome da sua agenda, taken from Telefone Mudo, made famous by Trio Parada Dura, presented in the exhibition Terra Caçula (Sesc Palmas); com letras douradas num papel bonito chorei de emoção quando acabei de ler, a verse from Convite de Casamento, widely known in the voice of Gian & Giovani, included in Novas Aquisições – Coleção Artistas Goianos (Centro Cultural Octo Marques); and é hora de parar com a presepada respeita a sua namorada, written by Marília Mendonça and Maraísa, presented in Não vou negar: artes visuais, território e música sertaneja (Centro Cultural UFG).

In the first case, the verse from Horizonte Azul evokes an imagination of departure and return. The image of the horizon as a promise, lit by colors that shift between day and night, structures a desire to return to a place that no longer exists as such. It is a gesture of looking toward the distance in an attempt to recompose what has been lost. Within the exhibition space, this synesthetic landscape takes shape as an affective projection, a field of suspended expectation between memory and desire.

In Telefone Mudo, the excerpt summons a lyrical voice that demands its own erasure. What matters here is the crossed-out name, the forgotten number, the bond undone at a material level. In this ambivalent movement, wounded pride emerges as a way of preserving dignity in loss. By transferring the verse to the exhibition space, I propose it as an alter ego, an intimate and collective voice that exposes an emotional economy marked by rupture and incompleteness.

In the banner é hora de parar com a presepada respeita a sua namorada, the horizon shifts. This is not about an ending, but about a dispute over the continuation of a bond. The phrase claims recognition and public acknowledgment. The female lyrical voice appears directly, refuses the position of the woman who suffers in silence, demands reciprocity, affirms her own value, and challenges fixed images of women within the sertanejo context.

When brought into the space of art, these verses gain new critical layers. Sertanejo emerges as a field of dispute connected to pride, loss, claim, and the desire for recognition. Within the exhibition space, the songs cease to function only as part of everyday life and begin to operate as thought. The banners propose other ways of occupying space, bringing in new voices, inflections, and memories, and activating a dramaturgy that remains open and in constant motion.