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O jorramento de um mundo

24/11/2020


A)

28/08/2020

FÁBULA-COSMOGONIA

Os insectos nocturnos em torno da luz
As estrelas em torno das estrelas
Os meus pensamentos em torno de ti
Eu em torno do nada
O nada em torno de mim

Os meus pensamentos em torno de si mesmos
Tu em torno dos meus pensamentos
O nada em torno de ti
Os insectos nocturnos em torno do nada
As estrelas em torno de mim

Eu em torno dos meus pensamentos
As estrelas em torno de ti
Os insectos nocturnos em torno das estrelas
A luz em torno dos insectos nocturnos
O nada em torno da luz

As estrelas em torno de si mesmas
Os insectos nocturnos em torno de si-mesmos
Tu em torno de ti mesma
Eu em torno de mim mesmo
O entorno em torno do entorno

György Somlyó
[tradução de Egito Gonçalves]


Na presença de

27/08/2020

Fotografia de Samuel Costa.


Celebrar o cotidiano

21/08/2020

O cotidiano está longe de passar batido para o artista e pesquisador goiano Benedito Ferreira. Mestre em Arte e Cultura Visual pela UFG, sua obra vai na contramão do clichê ao retratar rotinas simples da vida por um viés encantador, sensível e memorável, tendo como cenário principal o centro de Goiânia.

“Não dissocio meu trabalho de artista ao de pesquisador, sou as duas coisas juntas, em convívio”, diz Benedito. No mestrado do Programa de Pós-Graduação em Arte e Cultura Visual investigou as visualidades do cinema brasileiro e as poéticas da direção de arte. O contato de Benedito com diversas formas de expressão reflete na produção de suas obras.

Entrevista para o Jornal da Universidade Federal de Goiás.


Pró Rio

18/08/2020

A convite e olhar carinhoso do curador Raphael Fonseca, participo do Fotos Pró Rio, um projeto solidário de vendas de fotografias para a cidade do Rio de Janeiro. Com a participação de mais de 400 autores, e mais de 80 curadores, o projeto reverterá o valor das fotografias em doação para três ONGs cariocas. A plataforma com todas as fotografias será lançada amanhã, dia 19, quando é celebrado o Dia Internacional da Fotografia.


Queda: carta de Benedito Ferreira para Pio Vargas

30/07/2020

O surrealpolitik nasceu como um projeto de revista de textos literários e ensaios de investigação estética e política, além de entrevistas, resenhas, críticas e imagens. Publiquei uma carta que escrevi para o poeta goiano Pio Vargas – articulações que sigo realizando e que integram o projeto Despertáculo.


A quarentena no grindr

21/05/2020

O Matheus Marx, do Matando Matheus a Grito, fez um vídeo pro canal dele selecionando algumas imagens do projeto oscarasdogrindr.


Memorial, Césio-137 e filme

19/05/2020

Projeto do Memorial do Césio 137 é apresentado ao secretário de Cultura do Estado de Goiás. O projeto foi desenvolvido por alunos da Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC/GO) com orientação de professores do curso de Arquitetura e Urbanismo.


O lugar do trono: bandeira

07/05/2020

O fundo de cor púrpura não consegue absorver o brilho da bandeira do Brasil, feita com cetim. A vibração do tecido, contudo, não detém o corpo, que aparece estirado no tampo da mesa. Quem vê a imagem do artista Benedito Ferreira pode pensar que ela foi feita um pouco antes do período da quarentena, em sinal de desespero. Apesar da sintonia entre a foto e o sentimento da população brasileira durante o período atual, que envolve também crises políticas, há uma outra história por trás da cena.

Há dois anos, Benedito percorria a rua Augusta com os amigos em busca de um lugar para papear. “No final da rua, mais próximo à praça Roosevelt, encontramos um bar simples, daqueles que conseguiram escapar da especulação imobiliária”, relembra ele, que escolheu uma das mesas como locação para um autorretrato. “Me chamou atenção o fundo púrpura, dramático, com a bandeira do Brasil em cetim brilhante”, explica o goiano, que fez a imagem com seu celular.

O rosto escondido e a posição dos braços não surgiu ao acaso, em outros autorretratos o artista utiliza esse expediente também em um misto de solução para timidez e tentativa de tornar uma situação individual algo que tenha maior amplitude. “Espero que as pessoas possam se colocar naquele lugar, que elas possam se sentar ali, comigo”, aponta o artista que localiza também na obra a referência à performance A Artista Está Presente, da sérvia Marina Abramovic, mas sem pompa, é importante ressaltar.

Sobre o hiato entre a produção da fotografia e a postagem dela, Benedito diz: “Gosto que elas tenham um tempo de depuração e que eu possa encontrar um lugar propício para elas serem vistas.” Acerca do contexto atual, de estímulo, por meio de editais ou ações informais, para produção de trabalhos durante a crise, o goiano opina: “Tenho revisitado meu arquivo de imagens, refletido sobre que fiz nos últimos dez anos. Quero primeiro absorver o que está acontecendo para depois me manifestar.”

A repórter Tatiane de Assis publicou a foto bandeira II da série O lugar do trono minha na Veja SP.


Diálogos da quarentena

07/05/2020

Estou com o querido e talentoso artista Tito Motta neste projeto que propõe conversas fotográficas entre fotógrafos em autoisolamento social. Desses diálogos, penso a arte como uma maneira de tomar posição frente ao tempo.


Trampolim

10/04/2020

Saiu o catálogo da exposição Um corpo no ar pronto pra fazer barulho, realizada no MAC Goiás de dezembro de 2018 a março de 2019.

Ana Flávia Marú, Benedito Ferreira, Carlos Monaretta, Carlos Motta Morais, Estevão Parreiras, Hariel Revignet, Hélio Tafner, Lina Cruvinel, Manuela Costa, Talles Lopes, Wander Von Wander

Curadoria de Raphael Fonseca, produção de Gilson Andrade e fotos de Paulo Rezende.


Alfândega

11/09/2019

Listagens que retiram a hierarquia das coisas e as dispõem em lugares inusitados.


Teste em Piracicaba

11/09/2019


República dos assassinos

28/11/2018

Ao buscar por filmes que apresentam o crédito de direção de arte ou diretor de arte anteriores à O Beijo da Mulher-Aranha, encontrei o República dos Assassinos (1979), que atribui esse crédito a Carlos Prieto. Consegui falar com o diretor Miguel Faria Jr por e-mail em agosto de 2018.

“O filme República dos Assassinos foi realizado em 1978 e lançado comercialmente em 1979. Não posso te afirmar que foi o primeiro filme brasileiro que apresenta o crédito de Diretor de Arte, mas no filme foi este o crédito dado a Carlos Prieto. Fui eu quem decidi pois era o justo para o trabalho dele no filme. Exerceu essa função de fato, dirigindo, inventado, desenhando cenários e figurinos, além de coordenar as equipes de cenografia e figurinos. Com o fotógrafo, e o diretor do filme, colaborou nas definições estéticas, paleta de cores e demais opções visuais.”


Imagem e gambiarra

24/05/2019

Conversei com o Marcelo Pedroso antes de sua chegada a Goiânia para trabalhar comigo num projeto. Falamos sobre a direção de arte do filme Brasil S/A (2014). Essas questões estão em minha pesquisa de mestrado.

“As imagens já vinham meio prontas e o grande desafio era a execução. Eu apresentei algumas referências, ele [Juliano] trouxe outras. O diálogo foi com Juliano Dornelles e Thales Junqueira, respectivamente diretor e produtor de arte. as referências iam de malevich (Quadro branco sobre fundo branco) a Roberth Smithson (Spiral Jetty) e a galera de land art em geral. Mas tinha também Elia Suleiman (a cena da ninja em intervenção divina) e trabalhos de Cinthia Marcelle com videoarte. O problema era realmente o descompasso entre o orçamento e a grandiosidade da execução. Então a gente tentou planejar as coisas no papel, várias plantas baixas e contratamos até um cara de autocad pra fazer umas projeções pra gente avaliar a visibilidade de algumas cenas, que altura a câmera precisaria estar para imprimir o visual, etc.

O que acontece é que a gente queira imprimir um tom grandiloquente às cenas, isso fazia parte de uma estratégia de usar a ironia pra comentar o imaginário de grandeza brasileiro, o mito do progresso, a ideia do país do futuro etc. Então eu queria que as cenas ficassem impecavelmente realizadas, tudo simétrico, milimetricamente pensado. Mas aí vinham as questões orçamentárias, não só no que diz respeito à viabilizar as estruturas gigantes como também ao tempo da execução. Um bom exemplo é a cena da “procissão” de escavadeiras transportadas por caminhões. primeiro que a gente não teve grana para alugar todas as escavadeiras. Então no meio do cortejo tem um rolo compressor velho, uma escavadeira meio caindo em pedaços. isso contrastava com a ideia de grandiosidade, era uma verdadeira gambiarra. Acabava determinando as possibilidades de existência das cenas também, né? Tipo, a própria precariedade da realização se tornava uma rusga na ideia de progresso e grandeza, como se não fosse possível nem maquiar a realidade. Enfim… virou isso. Em vários momentos isso saltava aos olhos.

Tem uma cena que um carro blindado deveria aparecer todo coberto de espuma. Mas a “máquina” de espuma que a gente conseguiu fazer em gambiarra, as espumas pareciam de um banho de choveiro normal. A gente teve que cobrir com efeitos digitais, mesmo assim não ficou nem perto do que eu imaginava…

Acho que depende do filme, tem algumas em que ela precisa aparecer, saltar da tela, tipo em Brasil S/A. Mas tem outras que ela precisa ser discreta, quase sumir. Em Brasil S/A tanto a direção de arte quanto a trilha precisavam gritar. Elas tinham vida própria e tomavam as rédeas da narrativa em muitos momentos, conduziam o filme. Se elas não funcionassem, o filme ficava ameaçado. Acho que de forma geral a melhor direção é aquela que entra em sintonia com o filme de forma harmoniosa, sabendo o momento de aparecer e o momento de sumir, né não?”


O peso dos tempos

15/04/2019

O teatro resiste e ajuda a resistir em um povoado arrasado na Síria. Em um dos campos de refugiados em Saraquib, o ator Walid Rasheed apresenta espetáculo de bonecos para crianças. Foto de Amer Alhamwe.


Os pássaros e a cama

28/03/2019

Consegui o contato da Cristina Mutarelli através de um amigo do Rio que é produtor de elenco. Eu me [re]apaixonei por ela depois que lembrei de sua rápida participação no filme Anjos da Noite. Ela faz uma secretária e tem um ar debochado em cena. Cristina estudou cinema na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP), chegou a dar aulas de montagem e assina a direção de arte de O olho mágico do amor (1982) e Onda Nova (1983), ambos dirigidos pela dupla José Antônio Garcia e Ícaro Martins. Nossa conversa aconteceu no dia 25 de março de 2019.

“A ECA era muito dominada por uma certa linguagem, a ideologia da fome, né? Os roteiros que eles patrocinavam eram ligados a pobreza, à miséria, estética do preto e branco… que na verdade não era a nossa luta, porque a gente era do humor, ainda que fazer humor também seja um tipo importante de luta. Mas na época os professores, alguns professores ali, eram chamados de cuecão, do partido comunista. Eles não estavam interessados no humor. Penso que O olho mágico é um deboche, é um filme de humor. Nós não conseguíamos produzir nossos filmes na ECA, eles não queriam trabalhar com esse tipo de conteúdo. Todo ano os nossos roteiros eram submetidos, mas eles não eram aprovados. Eu trabalhei com o Naum Alves de Souza, eu tinha uma visão diferente das coisas. O Ícaro Martins também. Nós éramos de uma turma mais ousada, não tínhamos patrocínio.

Ícaro e José Antônio foram na Boca do Lixo pedir algum patrocínio. A ideia era entregar um roteiro engraçado, mas que fosse o próprio deboche de toda aquela época, do cinema paulista, que fizéssemos um trabalho em que nós pudéssemos experimentar. Cinema é prática e eu pensava que precisava me exercitar. Tudo era coletivo demais, havia uma ideia de grupo no filme. Na hora de dividir as funções, cada um assumia uma linguagem. Eu era meio que produtora de elenco, viajei para o Rio com o José Antônio Garcia para conversar com a Carla.  Nossa turma era eu, Cristina Santeiro, o Ícaro Martins e José Antônio. Foi a nossa possibilidade de existir nesse mundo de cinema. Eles [os diretores] construíram um território em que pudéssemos atuar como profissionais de cinema. Os prêmios que recebemos foram políticos, foi um prêmio bastante político como forma de incentivar a produção independente fora da universidade.

Os diretores perceberam que como eu assinava tudo, chegava inclusive a maquiar, sugeriram que eu assinasse como diretora de arte. Sem qualquer assistente, com o orçamento muito baixo, fui a brechós e antiquários para poder produzir os objetos. Apenas o quarto da Tânia Alves foi feito na produtora do filme. O restante, tudo em locação. Quando eles começaram a trabalhar no roteiro, eu participava das leituras. Discutíamos quem eram aqueles personagens, em que lugar eles morariam, onde seria aquele prostíbulo. O lugar da Carla era mais escuro, mais marrom. O lugar da Tânia era mais iluminado, nada lúgubre, era a festa e a alegria. Já tínhamos conceitos antes de filmar. Havia a discussão com o fotógrafo em relação dos pontos de luz e com os atores em relação aos comportamentos dos personagens. O escritório da Carla foi montado numa locação que o produtor do filme, o italiano Adone Fragano, arranjou. O orçamento era muito baixo. Os pássaros foram emprestados do Colégio Sion, eles não sabiam que era para um filme. Os elementos que eram muito importantes, são os pássaros empalhados no escritório da Carla e da cama no quarto da Tania. Não foi uma direção de arte totalmente fiel ao ideal, mas sabíamos até que ponto podíamos abrir mão de alguns conceitos.

Eu montava o cenário, deixava ele todo montado. Não havia monitor, não tinha como visualizar. O escritório da Carla foi montado numa locação que o produtor italiano Adone Fragano arranjou. O orçamento era muito baixo. Os pássaros foram emprestados do Colégio Sion, eles não sabiam que era pra um filme. Diversos objetos foram levados da casa dos meus pais e também de outros lugares, como em antiquários do centro de São Paulo. Os elementos que pra gente foram muitos importantes, são os pássaros empalhados no quarto da Carla Camurati e da cama no quarto da Tania. Não foi uma direção de arte totalmente fiel ao ideal, mas sabíamos até que ponto podíamos abrir mão de alguns conceitos.”


A voz de Óscar ao telefone

21/01/2019

Consegui o contato do Óscar Ramos através de um amigo que vive em Manaus. Eu soube dele depois que passei dias tentando fazer o download de alguns filmes do Bressane. Sabia do básico, que que ele produziu em parceria com Luciano Figueiredo as capas de álbuns da Gal Costa e que havia passado pela revista Navilouca, dos poetas Torquato Neto e Waly Salomão. Tentei várias vezes, mas sempre dava caixa. Fiquei encantado com sua elegância, sua voz baixa e memória aguçada. Perguntei pouco, na verdade o necessário pra compreender coisas sobre a direção de arte de O Gigante da América, final dos anos 1970, e sua relação de trabalho com o cineasta Ivan Cardoso. A conversa aconteceu no dia 19 de janeiro de 2019.

“Essa turma toda, o Bressane, Sganzerla e Ivan Cardoso, prestava atenção nos visuais. Desde adolescente, eu prestava atenção em funções nos créditos dos filmes dos anos 1940, minha época de cinema favorita. Em cinema a coisa mais importante para mim é o filme, o jeito de articular uma linguagem. Me interesso por filme e não por cinema. Fiquei seis anos em Londres, fiz algumas experiências amadoras em super 8. Eu não aguentava toda a barbaridade da ditatura, uma das razoes de ter ficado tanto tempo lá.

Estudei com Gianni Ratto e fui descobrindo a cenografia. Comecei minha carreira como desenhista técnico, o que contribuiu para minha formação. Trabalhei no no filme O gigante da América, do Bressane, final dos anos 70. Eu e Bressane conversávamos muito, eu já conhecia o conceito de direção de arte muito por conta de minha passagem na Inglaterra. Admirava o Polglase, diretor de arte do Cidadão Kane e também o genial Edward Carrere.

O Ivan Cardoso, que era muito mais jovem que eu, havia me chamado para fazer O Segredo da Múmia. Eu tinha um enorme apoio do Bressane. Era o clima do filme que me interessava. Minha mãe foi uma grande costureira de Manaus. As roupas do filme possuem essa memória, tem uma cara dos anos 50. Tinham o cheiro de sua máquina de costura. Desenhei todas elas, uma por uma. Um dia eu cheguei na mesa de reunião do filme e disse que queria assinar como diretor de arte. Eu nunca aceitei ser chamado de decorador, eu me ofendia. Eu fiz uma produção francesa há três anos atrás, e lá eles falam chef decorateur. Isso me incomoda, porque eu não sou decorador. Sou diretor de arte e, para mim a direção de arte coloca o filme todo numa frequência, imprimindo um ritmo. Detesto essas ideias geniais, essa coisa de botar efeito especial em tudo, vira algo sem emoção. O diretor de arte geralmente fica entre os focos da produção e do diretor e assim busca soluções que imprimem um estilo à obra. Sou apaixonado pelo trabalho do Anísio Medeiros em Dona Flor, do Bruno Barreto. É um exemplo de cenografia humanizada, tem a força de uma imagem ária. Lindo.”

No fim, ele me convidou pra tomar um café em Manaus. Disse que estava cansado, que precisava voltar a trabalhar como diretor de arte e que ama filme.


Uma direção de arte fantasma

11/10/2018

Conversei com o crítico de cinema Rubens Ewald Filho por e-mail a respeito da direção fantasmagórica de Rubem Biáfora no filme A  Casa das Tentações. Essas investigações compõem parte importante de minha pesquisa de mestrado no Programa de Pós-Graduação em Arte e Cultura Visual da Universidade Federal de Goiás (PPGACV/UFG).

Reproduzo aqui trechos.

“Biáfora era uma pessoa muito especial, além de ser o líder do cinema nacional em São Paulo dos anos 1950 aos 1980 e poucos. Teve importância muito grande em tudo o que comandou, prêmios que deu, filmes que ajudou a produzir das mais variadas formas (…) Era uma pessoa difícil porque tinha problemas de visão e foi muito perseguido pela esquerda pesada, dentro do próprio jornal. Não foi meu mentor, nem coisa assim. Sua influência comigo foi pequena, mas eu gostava dele, era muito gentil, e fez coisas incríveis sacando dados do cinema que ninguém mais em sua geração foi capaz antes ou depois.

Em A Casa das Tentações não dá para ver um estilo. A intenção era fazer um filme sobre a época medieval que ele [Biáfora] tinha fascinação. Mas o projeto começou a ficar caro demais (…) A ideia parecia bastante o filme de Charlton Heston, O Senhor da Guerra, de 1965. A direção de arte foi alguma gentileza que ele fez com algum amigo que não sei quem é. Mas o filme era tão pobre que não dava para muita coisa. Era tudo emprestado e olhe lá. Por isso ele assinou a cenografia.”

Intrigado com a inexistência de qualquer informação a respeito de Rocco Biaggi, o diretor de arte creditado no filme, escrevi pro cineasta e pesquisador Alfredo Sternheim, pouco antes de seu falecimento.

“Não lembro de ter conhecido nenhum Rocco, um nome marcante e fácil de memorizar. Naquela época, eu já transitava pelo Cinema da Boca. Levando em contas as iniciais RB, as mesmas de Rubem Biáfora, tenho a impressão de que o Biáfora fez um fake, agregou esse diretor de arte para dar boa impressão na produção, pobre, como a maioria dos filmes da Boca que, na época, não contava com o mecenato oficial. E convenhamos: no Cinema da Boca, era um luxo ter um diretor de arte ou alguém assim citado.”