Despertáculo (corte II)

fotografias / cartas / 2020 – em processo

Retomo parte das fotografias que realizei entre 2013 e 2019 enquanto escrevo cartas para o poeta Pio Vargas (de quem tomo emprestado o neologismo despertáculo) e o fotógrafo Samuel Costa – artistas goianos mortos precocemente. As composições desse inventário pretendem tornar evidentes percursos realizados nos últimos anos e ao realizar esse download de várias reflexões e descobertas, objetivo alcançar uma ideia de futuro vislumbrada nas cartas aos dois artistas e na articulação de imagens.

corte II (ou gesto curatorial II) amplia o tecido das citações para possibilitar que as imagens aconteçam outra vez quando combinadas através do gesto rebelionário e do efeito de simultaneidade.

Iporá (GO), 1964 – Turvelândia (GO), 1991. Pio Vargas cursou apenas o primeiro grau, ainda em sua cidade natal. Começou a escrever aos 14 anos de idade. Morou na mesma rua que o escritor Edival Lourenço, logo ficaram amigos. Pio cuidava de seus filhos enquanto ele ia para o trabalho e, nesse meio tempo, devorava os livros de sua biblioteca. Idealizou as edições Divagar e Sempre, responsáveis pela publicação de diversos autores goianos. Com seu jeito crítico e gozador, promoveu recitais, festivais de música, semanas culturais e publicou livros de poesia.

Jataí (GO), 1954 – Goiânia (GO), 1987. Samuel Costa morou em Goiânia, onde iniciou seus estudos em Engenharia Elétrica na Universidade Federal de Goiás, que abandonou para se dedicar totalmente à fotografia. Quando criança improvisava, dentro de um guarda-roupa, o seu primeiro laboratório fotográfico. No final dos anos 1970, mudou-se para Paris, de onde viajaria por toda a Europa. Na década seguinte, regressa ao Brasil e registra com sensibilidade a reabertura política do país.

Usas a memória como um andaime em colapso iminente.

Luís Quintais

SUB ROSA
para o Herberto Helder

Não somos os últimos, pois se
há coisa que o mundo sempre fez bem
foi acabar. De novo e sempre: acabar.

Mas já não trabalhamos com o ouro
e temos um certo pudor tardio
em falar de deus, do amor ou até do corpo.

As metáforas arrefecem, talvez contrariadas.
São casas devolutas, mães risonhas
ou sombrias cujo grito deixámos de escutar.

Do lixo, porém, temos um vasto
e inútil conhecimento. Possa
ele servir de rosa triste aos
que não cantam sequer, por delicadeza.

Manuel de Freitas