Despertáculo (corte IV)

fotografias / cartas / 2020 – em processo

Retomo parte das fotografias que realizei entre 2013 e 2019, enquanto escrevo cartas para o poeta Pio Vargas, de quem tomo emprestado o neologismo despertáculoe o fotógrafo Samuel Costa – artistas goianos mortos precocemente. Pio sempre esteve em meu radar, sonhei bastante com seus poemas, quis imaginar uma cidade a partir de sua produção e dos relatos que guardo de pessoas próximas. Samuel veio depois, da experiência radical de estar diante de suas imagens e da reportagem com sua mãe que comenta seu regresso a Goiânia e a descoberta da aids. Ao elegê-los, reconheço que fizeram de suas obras a abertura para uma História que objetiva trocas e endereçamentos. Percebo em alguns dos poemas de Pio a tentativa de aniquilamento do passado, insistindo nas imagens de um cotidiano em sobressalto, ao passo que Samuel, valendo-se de seus deslocamentos de outrora, coteja com sensibilidade a família e a autodescoberta. As composições de minha coleção que articula imagens e textos pretendem tornar evidentes percursos realizados nos últimos anos e almejam alcançar uma ideia de futuro. As cartas tratam do esplendor do incomum, almejam o centenário de Goiânia no ano de 2033, comentam aparições e ficcionalizam eventos.

corte IV deseja transformar o tempo do visível a partir das articulações entre ambientes, objetos e trânsitos de personagens que são mencionados nas cartas.

Iporá (GO), 1964 – Turvelândia (GO), 1991. Pio Vargas cursou apenas o primeiro grau, ainda em sua cidade natal. Começou a escrever aos 14 anos de idade. Morou na mesma rua que o escritor Edival Lourenço, logo ficaram amigos. Pio cuidava de seus filhos enquanto ele ia para o trabalho e, nesse meio tempo, devorava os livros de sua biblioteca. Idealizou as edições Divagar e Sempre, responsáveis pela publicação de diversos autores goianos. Com seu jeito crítico e gozador, promoveu recitais, festivais de música, semanas culturais e publicou livros de poesia.

Jataí (GO), 1954 – Goiânia (GO), 1987. Samuel Costa morou em Goiânia, onde iniciou seus estudos em Engenharia Elétrica na Universidade Federal de Goiás, que abandonou para se dedicar totalmente à fotografia. Quando criança improvisava, dentro de um guarda-roupa, o seu primeiro laboratório fotográfico. No final dos anos 1970, mudou-se para Paris, de onde viajaria por toda a Europa. Na década seguinte, regressa ao Brasil e registra com sensibilidade a reabertura política do país.