Despertáculo (corte IV)

fotografias / cartas / 2020 – permanente

No projeto Despertáculo, retomo parte das fotografias que realizei de 2013 a 2020, enquanto escrevo cartas para o poeta Pio Vargas e o fotógrafo Samuel Costa – artistas goianos mortos precocemente. Identifico nos trabalhos de Pio e Samuel a convocação de interlocutores que, com seus matizes, idiossincrasias e atravessamentos, sejam capazes de contribuir para o encorajamento de um outro mundo. Ao elegê-los como destinatários das cartas, reconheço que fizeram de suas obras a abertura para uma História que objetiva trocas e endereçamentos. Pio sempre esteve em meu radar, quis imaginar uma cidade a partir dos relatos que guardo de pessoas que estiveram próximas a ele. Samuel veio depois, da experiência radical de estar diante de sua produção fotográfica, da reportagem com sua mãe que comenta seu regresso ao estado de Goiás no final dos anos 1980 e a descoberta da aids. Percebo em alguns poemas de Pio a tentativa de aniquilamento do passado, insistindo nas imagens de um cotidiano em sobressalto, ao passo que Samuel, valendo-se de seus deslocamentos de outrora, coteja com sensibilidade temas como a família e a viagem. Além de articular imagens e textos, pretendo tornar evidentes percursos realizados nos últimos anos e alcançar uma ideia de futuro para Goiânia. Coloco o meu corpo em situação de ateliê na rua e conduzo publicamente os meus aprendizados com as pessoas. As cartas tratam do esplendor do comum, zombam de cenas específicas, antecipam o centenário de Goiânia em 2033, comentam aparições e ficcionalizam eventos assentados no terreno fértil da montagem.

corte IV quer transformar o tempo a partir das articulações entre ambientes, objetos e trânsitos de personagens citados nas cartas.

Iporá (GO), 1964 – Turvelândia (GO), 1991. Pio Vargas cursou apenas o primeiro grau, ainda em sua cidade natal. Começou a escrever aos 14 anos de idade. Morou na mesma rua que o escritor Edival Lourenço, logo ficaram amigos. Pio cuidava de seus filhos enquanto ele ia para o trabalho e, nesse meio tempo, devorava os livros de sua biblioteca. Idealizou as edições Divagar e Sempre, responsáveis pela publicação de diversos autores goianos. Com seu jeito crítico e gozador, promoveu recitais, festivais de música, semanas culturais e publicou livros de poesia.

Jataí (GO), 1954 – Goiânia (GO), 1987. Samuel Costa morou em Goiânia, onde iniciou seus estudos em Engenharia Elétrica na Universidade Federal de Goiás, que abandonou para se dedicar totalmente à fotografia. Quando criança improvisava, dentro de um guarda-roupa, o seu primeiro laboratório fotográfico. No final dos anos 1970, mudou-se para Paris, de onde viajaria por toda a Europa. Na década seguinte, regressa ao Brasil e registra com sensibilidade a reabertura política do país.

Des­per­tá­cu­lo

Es­tou pron­to
pa­ra a guer­ra que en­con­tro
quan­do acor­do:

bo­tei vi­gia nos sen­ti­dos
e ilu­di com com­pri­mi­dos
ou­tros se­res a meu bor­do.
Aban­do­nei o ví­cio
de es­tar sem­pre
a so­le­trar ru­í­nas,
dei li­ber­da­de a meus de­ten­tos
mi­nha pres­sa di­lu­iu nos pas­sos len­tos
e ras­guei
meu ca­len­dá­rio de ro­ti­nas.

In­ver­ti a or­dem.

Já não saio por aí
a de­vo­rar com­pro­mis­sos,
to­mei pos­se no go­ver­no de mi mes­mo
e der­ro­tei os meus omis­sos.

Ven­ci a ba­ta­lhas
de ter que es­tar sem­pre por per­to,
às ve­zes voo pa­ra den­tro
do meu so­nho a céu aber­to.

Es­tou pron­to:

eu já con­cor­do
com a guer­ra que en­con­tro
quan­do acor­do.

Pio Vargas