Conheci o trabalho de Benedito Ferreira depois da experiência de pensar a curadoria do Trampolim, programa para jovens artistas residentes no estado de Goiás, em 2018, no MAC-GO, organizado por Gilson Plano. Sempre me impressiona a forma como Benedito se vale da fotografia: ao olhar suas imagens, há uma banalidade nos temas que joga com a nossa expectativa em torno da ideia de “espontaneidade” – estariam essas pessoas posando para a lente ou teria ele roubado suas imagens num clique? Nessa fotografia da série “O lugar do trono”, a amada e odiada bandeira do Brasil toma o centro da composição e um corpo estirado nos coloca em dúvida: saudação ou cansaço? Nacionalismo fascista ou desbunde etílico? A rua nos surpreende enquanto espectadores e o artista dá prosseguimento a uma pesquisa onde os limites entre “documento” e “ficção” – esses tópicos tão explorados pela teoria da imagem e da fotografia – são borrados.

Texto do curador Raphael Fonseca para fotografia que participa do projeto Fotos Pró Rio, ação solidária articulada pelo FotoRio, Villa Aymoré, Ateliê Oriente e Retrato Espaço Cultural. Agosto, 2020.

Os caras do grindr é uma coleção iniciada em 2016 de textos que usuários do aplicativo grindr fazem em seus perfis públicos. A ferramenta abrange o público gay, bi, trans e corpos queer interessados em marcar encontros ou apenas trocar mensagens. Ativado por geolocalização, mostra na tela inicial os nomes e imagens de outros usuários que estão nas proximidades. Interessado em discutir as relações negociadas e disputadas no uso do aplicativo, recorto os textos de apresentação dos usuários e os sobreponho a fundos monocromáticos ou estampas coloridas, pensando o screenshot como material fotográfico capaz de replicar uma narrativa.

Texto de Benedito Ferreira para a Revista do Colóquio “Quando a Arte Afeta a Vida”, Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Agosto, 2020.

Em Nenhum o espectador é confrontado com 6’45’’ de um esquema laboratorialmente organizado para tornar coabitáveis sensações que abrem lugar ao surgimento de uma beleza trágica, que ganha textura com o andar da narrativa. Trabalhando na fresta entre o deleite e a apreensão, Benedito isola um fenômeno comum em noites quentes e úmidas, para, em caráter experimental, assistir e registrar a história de uma derrota – uma entre tantas no mundo dos seres que involuntariamente caem nas sombras da inventividade humana.

Não se trata, assim, da beleza serena, porque circundada por aflição e uma luta por sobrevivência que une o ímpeto por vencer um forte extinto inato ao esforço necessário para escapar do claustro. O resultado não poderia ser outro além da própria ruína, esta sim serena e nobre, pois resignada. A sequência em pouco tempo abre-se ao previsível: padecer ou escapar. O triunfo do primeiro intensifica a tragicidade dos segundos finais da filmagem, em que o corpo açoitado e exausto repousa sobre a luz para morrer coroando seu martírio.

Os breves momentos em que a visão é obliterada para dar lugar ao som dos movimentos agonizantes, mais do que prosseguirem com a narrativa, ressaltam o impulso por vida ainda restante no animal enclausurado. Já o formato do vídeo atua menos como emulador de uma manjada armadilha para insetos noturnos que é a fonte de luz artificial, para em verdade atrair a atenção do espectador a partilhar dessa experiência de beleza que habita na confluência entre o belo, o inquietante e o estranhamento: a eterna ciranda de Apolo e Dionísio.

Texto do pesquisador Victor Zaiden para catálogo da exposição Do Corpo Objeto ao Animal Político. Divisão de Artes Plásticas, Arte Londrina 8. Curadoria de Danillo Villa e Michelle Sommer. Junho, 2020.

Nenhum partiu de uma simples observação e foi filmado em poucas horas, antes da chegada da chuva. O material ficou guardado durante meses. Nesse meio tempo, estava estudando algumas coisas de Botânica, revisando aqueles conceitos que a gente aprende na época da escola. E então resolvi montar preservando os arquivos originais e propondo os intervalos em black. Minhas investigações artísticas estão centradas na potência da escrita da imagem, na poética dos arquivos e no artista como um apanhador de fragmentos do mundo. Uma das questões centrais é a dinâmica dos arquivos e o modo como eles podem ser trabalhados. Tenho interesse pelas formas pequenas, pelos retratos que requerem um olhar mais aproximado. Curioso pensar aquele corpo frágil filmado em 2018 justamente agora na pandemia, que temos tantos anseios e que tudo está em suspensão. Esse enclausuramento da mariposa reflete questões do contemporâneo, desse corpo que não aguenta mais, lembrando as imagens de Beckett que o texto de David Lapoujade evoca. Uma fonte luminosa que acaba por confundi-la, uma luz artificial mais intensa que a da lua enquanto a mariposa necessita corrigir sua rota de voo para sobreviver. Quer dizer, a rota de voo é a garantia da sobrevivência. Isso me emociona, afinal nós também somos atravancados por agentes e fenômenos que parecem superiores, que nos ludibriam, que também nos obrigam a corrigir nossas rotas ou a construir paraquedas coloridos, como escreve o Ailton Krenak.

Neste período de quarentena, tenho revisado os textos do Artavazd Pelechian, cineasta armênio que possui uma obra curta, mas muito poderosa. Também tenho lido os poetas portugueses Adilia Lopes e Manuel de Freitas. Tenho pensado no Martin Parr e nas aulas que tive com a professora e filósofa Carla Damião na Universidade Federal de Goiás. Estou trabalhando na finalização de dois projetos. Gostaria de terminar um para começar outro, mas isso é muito difícil. Um deles é um projeto grande, que se chama Despertáculo e envolve uma série de fotografias em dimensões variadas, imagens produzidas em sua maioria em Goiânia, que é de onde eu venho. No trabalho, estabeleço conexões com dois artistas goianos, Pio Vargas e Samuel Costa, mortos precocemente. Estou em autoisolamento social na casa dos meus pais que fica em Itapuranga, uma cidade no interior de Goiás. Quando tudo isso começou e vi que seria muito grave, eu havia acabado de me mudar para o Rio de Janeiro para cursar o doutorado em Artes na UERJ. Fiz apenas a primeira semana de aulas, aconteceu a suspensão das aulas e voltei para Goiás. Estou aqui em Itapuranga (GO) desde o começo e tentei estabelecer uma rotina, mas acabo trocando os horários e perco a noção do tempo. Então vou sentindo devagarinho os dias, sem me cobrar muito. Tem dias que fico sem notícias, outros que quero saber tudo o que está acontecendo. Alguns dias são mais melancólicos. Vou vivendo devagar, tentando aprender.

Tenho uma lembrança muito boa de um curso que fiz com a Leda Catunda em São Paulo em 2010. Outra lembrança boa foi a primeira vez que vi o trabalho da Pipilotti Rist ao vivo em Berlim. Fiquei impressionado com a escala, a escolha dos materiais e o jeito como articula o som nos vídeos. Também me emociono sempre com a série O Decálogo que o Kieślowski produziu para a televisão polonesa no final dos anos 1980. Revi antes da quarentena, gosto de todos os episódios. Gostaria de ter tomado uma cerveja com ele.

Os arquivos permitem novas associações e combinações, e isso me fascina. Arquivos e documentos também ficcionalizam, afinal confabulam interesses particulares. E o que chamamos de documental não pode ser visto atrelado apenas ao conceito de “verdade”, mas sim como uma forma de se relacionar com o mundo. De fato, o que tem me pegado é como os arquivos podem auxiliar na construção de um espectador-montador, aquele que é capaz de romper com narrativas totalizantes e propor um corte, ou seja, construir as imagens que estão por aí no mundo.

Trechos de entrevista para o projeto Arte Londrina 8, por ocasião da exposição Do Corpo Objeto ao Animal Político programada para 2020. Curadoria de Danillo Villa e Michelle Sommer. Junho, 2020.

Todo trampolim é feito para impulsionar o nosso corpo para o alto e por vezes pra frente – sejam aqueles usados nos saltos ornamentais olímpicos ou uma cama elástica, eles são um convite para sairmos da solidez do chão e uma lembrança da certeza da gravidade. Esta exposição realizada é o resultado de um salto coletivo – desde abril desse ano tenho o prazer de saltar junto aos onze artistas aqui presentes. Cada um projeta o corpo à sua maneira e em uma velocidade diferente.

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O tempo, os corpos e as possibilidades de narrativas parecem ser o ambiente de reflexão para outros artistas presentes no projeto. Benedito Ferreira se utiliza da memória familiar recente para dedicar uma série de colagens com remédios para sua avó. Se seus outros trabalhos não lidam de maneira tão direta com a memória de uma pessoa, ao menos se apropriam de materiais e de metáforas que novamente nos remetem à passagem do tempo, à infância e ao cerceamento do corpo.

Texto do curador Raphael Fonseca para catálogo da exposição Um corpo no ar pronto pra fazer barulho realizada no Museu de Arte Contemporânea de Goiás (MAC GO) em 2018.

Goiânia tem cara

Andar pelo Centro de uma cidade-vida é como passar por um Museu de Pessoas. Alguns caminham apressados, com a cara enterrada na tela do celular, sem perceber que em volta existe muita vida. Porém, mesmo quem passa correndo atrás do horário de um compromisso, não está completamente à parte desse cenário. Talvez alguém de dentro do ônibus ou do outro lado da rua está admirando com atenção aquela cena: um quase teatro, só que muito mais real. A simplicidade do real, do cotidiano, é material para criação artística, portanto nada mais relevante do que retratar em um processo criativo o que está a nossa volta e quem está a nossa volta. Uma forma de se identificar como parte disso tudo.

Com esse mesmo intuito de buscar uma relação com a cidade, o cineasta Benedito Ferreira iniciou um projeto com fotos pelas redes sociais. “As fotografias que realizo no centro de Goiânia surgiram depois que voltei a morar aqui, em março de 2013. Penso que elas me auxiliaram na reconciliação comigo mesmo e com a própria cidade. Quando voltei, percebi que aquela cidade que eu havia deixado não existia mais. Era uma espécie de saudade de algo que eu não sabia atribuir um nome”. O tema central dessas fotografias, citadas por Benedito, é a população goiana que trafega pelo Centro, entre uma consulta no médico ou um compra na lojinha de produtos importados. Um verdadeiro banco de fotos que demonstram a diversidade e a singularidade das pessoas que moram aqui.

“Goiânia é uma cidade muito nova e eu comecei a me perguntar como seria um álbum de figurinhas com todos os rostos da cidade. Me perguntava também se era possível pensar nessa pluralidade através desses registros feitos com o celular”, afirma Benedito. Ele também conta que não utiliza a câmera profissional quando está na rua, pois acredita que o equipamento pode acabar com o caráter espontâneo da imagem. “Há um descuido no cotidiano do Centro de Goiânia que me encanta. Não estou em busca da melhor luz e do melhor tratamento de imagens na pós-produção. A fotografia é, para mim, um meio. É a minha interação com o cotidiano”. Apesar deste “descuido”, a composição das fotos de Benedito tem influência do cinema. É possível notar uma relação de cores, um contraste interessante, mas isso tudo fica em segundo plano: o importante, nas fotos, são os rostos das pessoas.

O Centro de Goiânia geralmente amanhece calmo, até por volta das 7 horas da manhã. Esse silêncio é interrompido em poucos minutos pelo abrir das portas de metais, da música sertaneja tocando nas lojas e das pessoas chegando para o trabalho. Em menos de meia hora o cenário é de pessoas entre as sacolas de supermercado cheias, entre caixas de som e locutores convidando para uma promoção imperdível de chinela rasteirinha. Essa frenesi de rostos, cheiros e sons só aumenta no horário de almoço e o Centro de Goiânia parece uma festa. Neste horário, em alguns momentos, é comum reconhecer um rosto triste, que sempre parece triste, mas parece muito familiar.

“Gosto de sair de casa mais cedo. Se tenho um compromisso às 14 horas no Centro, saio uma hora antes de casa, mesmo que o trajeto seja curtinho. Também não saio sem carregador. Observo bastante e vou em busca de um rosto, de alguém que seja novo nesta ‘coleção’. É claro que já conheço algumas figuras em determinadas ruas”, conta. Ele fala do mototaxista careca, das irmãs gêmeas que vendem roupa na Avenida Goiás, do pastor evangélico barrigudo que prega às 13h na Praça dos Bandeirantes, da travesti loira que trabalha no salão de beleza.

Trecho da reportagem do jornalista e poeta Walacy Neto para o jornal Diário da Manhã (GO). Julho, 2018.

Os curtas escolhidos para a sessão propõem uma reflexão sobre corpos, por vezes marginalizados, e como eles se relacionam com os espaços físicos da cidade, tendo como eixo central a relação das/dos protagonistas com o lugar onde moram. Algo do que fica, de Benedito Ferreira, se debruça sobre outra região da capital de Goiás – o Centro – e revela como o acidente do Césio-137 ainda se faz presente na vida dos moradores e da própria cidade. Um filme todo construído por sutilezas.

Trecho de texto de Daniel Nolasco para curadoria da sessão Rachaduras no Corpo da Cidade programada para o cineclube Curta Cinema 2018 no Rio de Janeiro (RJ). Maio, 2018.

Um senhor adoecido se arrasta para o vazio terreno da rua 57, o corpo envolvido por um lençol azul, azul como o Césio em noite de lua nova. Há 30 anos, a cápsula começava a ser desmontada naquele mesmo lugar. Quem sabe não testemunhamos a última dança de um homem ao som do silêncio dos mortos? O acidente do Césio-137 é ironicamente relembrado por Benedito Ferreira, que reflete com seu filme a especulação imobiliária pela qual vem passando a região mais fortemente afetada pelo incidente. A Comissão Nacional de Energia Nuclear e o estado de Goiás decidiram que um museu ajudará a recuperar e preservar essa memória, o que torna inevitável a curiosidade sobre a história que vão contar: será a dos contaminados? O terreno no qual os jovens ensaiam sua mórbida apresentação foi um dos focos desse acidente de aspecto criminoso: a casa fora demolida, o solo retirado e uma camada de concreto colocada para controlar a radiação, mas algo ficou.

Texto do curador Diego Franco para catálogo da 16ª Mostra do Filme Livre (RJ). Março, 2017.

O filme se apoia de maneira criativa naquilo que foi gerado a partir da política de esquecimento exercida pelo poder público e pela população, que não queria ser estigmatizada pelo acidente. Sua narrativa desperta dúvidas tão instigantes quanto as respostas que não foram dadas sobre os desdobramentos da tragédia. Nas cenas gravadas no terreno onde a cápsula contendo Césio-137 foi aberta, depois de encontrada nos escombros do antigo Instituto Goiano de Radiologia, vê-se a estrutura que restou de um outdoor que anunciava a construção de um museu a ser entregue no ano de 2010 e até hoje não saiu do papel. A partir de informações desencontradas e que povoam o imaginário do goianiense, o filme estabelece um clima, tendo a melancolia e a ironia como seus principais aliados. Os planos são longos e garantem a fluidez dos diálogos simples e criteriosos, o que nos aproxima a toda memória traumática do acidente. É como se ali, Benedito, que vive e recria o Centro da cidade a partir de fotografias do cotidiano, nos dissesse este é sim um filme goianiense.

O protagonista é um idoso sem voz e seu silêncio instiga o espectador sobre as causas que o deixaram num estado fora de rotação. Cuidado por avó e neta, a trama não se dedica a explicar a relação das duas mulheres com aquele homem, que vive ao lado do lote mais emblemático da tragédia e que terá sua casa desapropriada para a construção de um museu. A direção de arte dialoga com os destroços da memória e da trágica lembrança, desordenando objetos amontoados nos cantos, mesas, criados-mudos e mobiliário da casa que comporta a narrativa. Esses objetos parecem sinalizar o caos e a desordem que se perpetuaram na vida das vítimas. Em algum momento pode se duvidar que naquelas cenas haja representação. Uma dúvida que gera no espectador o entendimento de que a câmera estava ali documentando a vida de pessoas reais. O diretor escolheu ou foi escolhido pelos atores? Benedito conta que caminhava pelo Centro de Goiânia, onde costuma fotografar os diversos cotidianos, quando conheceu Oldom Bonfim, o senhor septuagenário que protagoniza a história de Algo do que fica. Tal abordagem rendeu o convite para o filme e então meses depois iniciaram as filmagens. Neta e avó que não representam esse papel apenas no filme, mas também na vida real, levam essa intimidade pra cena e flertam entre o campo da realidade na ficção.

Algo do que fica em nós e precisa ser lembrado, acompanhado, fiscalizado. A terrível tragédia do Césio-137, que em setembro deste ano completa 30 anos, não está apenas na memória, nos escombros enterrados, nos caixões vestidos de chumbo. É comum que de tempos em tempos alguém toque nesta ferida para sempre sem cicatrização. Cabe a arte se empenhar nestas questões. Algo do que fica faz isso e nos comove porque permanece em nós seus personagens goianienses, legítimos, irônicos e humanos. O Césio-137 reflete seu brilho na dor, nos corpos, nas almas. Algo do que fica precisa ser visto pelo mundo.

Texto de Rodrigo Ungarelli para a Mídia Ninja. Junho, 2017.

O curta-metragem Algo do que fica retrata a mudança de uma avó e sua neta da casa onde vivem — ao lado do lote do acidente do Césio-137 — provocada pela construção de um museu no local. Diferentemente de outras produções cinematográficas, Algo do que fica não parte de uma reconstituição histórica do acidente, mas da subjetividade, da relação do diretor, enquanto goiano, com a tragédia.

Ainda que infeliz, esse episódio não pode ser relegado ao limbo. Afinal, é por meio da memória cultural e histórica que lições são aprendidas, além do que, muitas coisas ficaram por explicar. O filme de Benedito Ferreira adota uma postura diante do silêncio que se fez sobre o Césio. “O que sobrou dessa memória? Por que falamos pouco sobre o acidente? A quem interessa esse nosso silêncio? Então, para costurar essas questões, fui pensando numa narrativa familiar, em que os protagonistas da história vão se dando conta do fantasma da tragédia, mesmo após três décadas do desmantelamento da cápsula”, esclarece o diretor sobre sua proposta. E acrescenta: “Ser goiano também é se reconhecer nessa tragédia”.

[…]

E o que é esse “algo do que fica” da tragédia com o Césio-137? Para Benedito Ferreira, “é o dar-se conta de que essa é uma história nossa, que o fantasma do Césio é invisível e que somente o diálogo nos aproxima, nos convida a repensar, para que possamos exigir que essa ferida seja melhor tratada”.

Trecho de reportagem de Adriana Rodrigues para o Jornal UEG – Universidade Estadual de Goiás. Setembro, 2017.

Em A galáxia de minha avó disponho os medicamentos de minha avó sobre imagens de diversas obras do célebre artista norte-americano Edward Hopper publicadas em um livro de capa dura. No trabalho, comprimidos e pílulas coloridas, alguns sobrepostos diretamente aos rostos das figuras femininas, dilatam o campo imagético para realçar a confrontação dos corpos nos espaços apresentados, propondo uma colisão de tempos e extensões. As personagens solitárias, realinhadas numa galáxia imaginária, extrapolam sua dimensionalidade e tencionam o vínculo entre as camadas do conjunto. Nesse jogo entre escalas, texturas, formas e cores das drágeas que lembram as balas e doces de infância, o pictórico é sutilmente confrontado pelo gestual e origina uma paisagem que se orienta justamente via conflito — uma galáxia em rearranjo no universo de nossa relação afetiva.

Texto de Benedito Ferreira para a Revista do Colóquio “Tempos de Conflito: discursos, presenças, realidades e fantasias”, Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Junho, 2017.

Pensei em fazer um filme que tivesse uma história goianiense. Uma história que só pudesse acontecer aqui e, num primeiro momento, não fosse universal. Algo que minha mãe, meus amigos goianos, meus alunos, meus colegas de trabalho, as pessoas que aguardam num ponto de ônibus da Avenida Paranaíba, enfim, que as pessoas daqui pudessem afirmar “essa história é sobre nós”. Tenho o hábito de fotografar pessoas no centro de Goiânia e colecionar essas imagens, que são muitas. Numa dessas perambulações pelo centro, conheci o protagonista. Ele estava ali ao lado do Mercado Municipal tomando um Coca-Cola com conhaque e senti que deveria tê-lo num filme, que gostaria de contar com sua participação, embora não soubesse exatamente como. Me encantei por sua história e mostrei o roteiro do filme. Penso que as artes tocarão no episódio triste do Césio-137 para sempre porque esta é uma ferida que não tem cicatrização e talvez o filme seja sobre isso, sobre o intervalo de 30 anos, aquilo que não escapou. Investiguei alguns relatos das vítimas de 1987, mas não entrei em contato porque queria privilegiar outro recorte, criar a partir de uma sensação fantasmagórica. Havia uma vontade de construir a partir de uma subjetividade, que não fosse uma reconstituição histórica com cartelas informativas, por exemplo.

Morar aqui no Centro me auxiliou a pensar o que eu, nascido depois do 1987, sei a respeito dessa história. O que as escolas goianas ensinam sobre nossa história? Na etapa de pesquisa que antecedeu a realização do filme, li um texto que dizia que o episódio do Césio-137 em Goiânia eclodiu naquilo que a antropologia chama de comunidade de sofrimento. A proximidade das casas, o grau de parentesco dos envolvidos, daquela comunidade. Uma memória traumática que aciona mecanismos conflitantes de público e privado. Me apoiei nessas ideias para construir esse fantasma do filme, o invisível e a lembrança.

Algumas pessoas não conhecem a história do acidente e criam interpretações do filme a partir dessa ausência de informação, ou seja, concentram-se em outros aspectos, vão em busca das lacunas que estão em cena. Há também aqueles que conhecem um pouco, que se emocionam com a duração das cenas do filme, que me mandam e-mail perguntando mais e que saem da sala de cinema em busca de mais informações, como ocorreu em Fortaleza. Ainda não foi exibido em Goiânia. Exibir aqui vai ser muito importante para o filme, é como se ele reivindicasse seu território.

Trecho de entrevista cedida ao jornalista Renato Queiroz do jornal O Popular (GO) a respeito da primeira exibição pública do filme Algo do que fica em Goiânia. Maio, 2017.

Recôndito

Em todos os filmes selecionados, considerando as diferenças de estilo, gênero e formato, há um tensionamento do estado de coisas através de olhares que insistem no impossível, naquilo que deve ser esquecido, no que se tornou inconveniente, naquilo que resta e retorna como sintoma, mas também nas formas alternativas de existência vislumbradas, ali mesmo, nestes desvãos.

Por último, no programa intitulado Paisagens da memória (Aquelas Ondas, A Câmera de João, Hora do Brincar, Real Conquista e Algo do que fica), os lugares dão o testemunho da história. Via acurácia de gestos, denuncia-se a pregnância do pretérito no presente, na exata medida em que se concebe a imagem como potência de fabulação. Rememorar se converte, então, em ato sensível e luta. Que estas tendências enraizadas floresçam.

Trecho do texto da curadora Dalila Martins por ocasião da 15ª Mostra ABD Cine Goiás. Junho, 2017.

Talvez a gente caiba aqui esboça um lugar imaginado cuja diluição é mediada pela permanência do público numa das saletas laterais do Grande Hotel Goiânia. A imagem da cidade opera como um pedaço de giz-de-cera indomável, fragmentos de experiências em vídeo, o sentimento implícito, e que ocupam o quadro para se desdobrarem nos limites daquele carpete de boas vindas. No segundo momento, conjuga-se o “verbo” talvez. O que interessa é o instante que antecede a cena? É a imagem que lhe caberá sem sobras ou falta? É a moldura que acolchoa os limites do quadro, provavelmente em razão de uma tensão, da ausência de legendas?

Sempre imaginei que deveria projetar este trabalho, depois de tantos anos em banho-maria, num lugar aconchegante e misterioso. Em 1940 a vida noturna da capital concentrava-se diante do Grande Hotel. Hoje, ele constantemente abriga artistas e grupos em processos de criação, mas desta vez resguarda a fisionomia de alguém que está prestes a chorar, que encaminha-se ao som atroado das ventanias e divide o microfone do karaokê com um velho amigo. O destroço no asfalto molhado.

Texto de Benedito Ferreira para a exposição individual Talvez a gente caiba aqui, realizada no Grande Hotel Goiânia. Maio, 2015.

Eu Já Não Caibo Mais Aqui é um belo exemplo desse cinema quase que artesanal, que busca construir incessantemente o quadro cinematográfico, seja através do manuseio e do corte do filme, seja através de uma necessidade de se extrapolar o quadro para dar uma impressão de incômodo, de impermanência, de aprisionamento. Quase que uma peça de pop-art, Eu Já Não Caibo Mais Aqui parece refletir um sentimento de insatisfação do próprio cineasta diante de uma certa acomodação da imagem, de um cinema que busca extrapolar os próprios limites do quadro.

Trecho de crítica de Rafael Castanheira Parrode para a Revista Cinética. Julho, 2011.

Eu já não caibo mais aqui, de Benedito Ferreira, consegue com objetos pra lá de simples – bexigas e afins – resultados imagéticos interessantes, que preenchem a tela, cumprem a função de narradores inanimados do que pretende. Se tem muito de sua qualidade inata de forma perceptível, sorte dele saber ter se valido dela com composição do aprendizado, sem querer ir além, sem querer dar passos maiores do que o possível para demonstrar que entende da coisa. Simples, correto, inventivo e bom, acima de tudo.

Trecho de crítica de Cid Nader para a Cinequanon por ocasião do Perro Loco – Festival de Cinema Universitário Latino Americano. Junho, 2010.